ANTIDIÁRIOS DE JUNHO


I


— Retomo esta sina de dividir em versos os íntimos

dos dias multiplicados na ordem do relógio do vírus


que desmaia entre as covas. E há ainda os tais juízes

dos tribunais boquirrotos das redes que determinam


quem morre e quem vive… Quem fala e quem convive

com as glórias virtuais dos emojezinhos e das curtidas.


Continuo só no silêncio estrondoso de um poema vazio

que inaugura o junho de vinte infestado pela pandemia.


E no frio da noite alta separo o corpo pesado do espírito

e navego nos cirros amontoados deste outono esquisito.


Escrevo antidiários reincidentes e preparo um novo rodopio

que me livre da navalha dos martelos e me lance no infinito.


II


Os meus versos vêm quase sempre da foto da janela aberta

— e de lá do mesmo barraco do morro e da sua luz amarela


que tinge as dobradiças da manhã num bege feito aquarela.

Pressinto aquela amargura vinda da ânsia de futuros inertes


ao preferir o pó da traça que habita nos meus livros velhos.

Encosto na claridade bronze do raio e de uma ventania fria


das dez e quinze, quando o sol de outono é amplo e ilumina

a gelosia banguela do dia; e expõe a sua madeira apodrecida.


Assisto à cena da viúva que vê o vídeo do falecido em 8mm…

E é assim que testemunho as horas e seus mil comprimidos


dos junhos que guardo na mão suada no meio da pandemia

— onde o poema se agarra nos desvãos escuros desta asfixia.


III


Preciso ir bem mais fundo no meu verso

e me esvaziar inteiro de todo o meu vazio.


Tenho de me reiniciar em silêncio comigo

e escavar os meus fósseis de modo inverso:


de dentro até o fora — do espelho ao reflexo

do que desaparece sob a cordilheira do ego.


O vento traz o aroma derradeiro; o que o poeta 

aguarda para fazer exatamente o que lhe resta.


O morro está calado feito este outono asséptico

e repleto da sujeira, onde o álcool não se atreve.


Na fumaça rasa da noite o poema sempre se revela

em uma coisa nenhuma: é uma oferenda sem vela.


IV


                                                                        Árvore curva o voo do corvo inverno.

                                                                                                         Matsuo Bashô


Na ebulição fria da palavra e na agonia dos pés acelerados
— que batem mais vagarosos do que os meus versos fracos


e do que os relógios deste antidiário. Os gelos das escápulas

estalam quase tão agudos quanto o ametista da madrugada


profunda por dentro da vértebra da coluna e da selfie barata 

do poema imerso entre as câmaras amplíssimas das vísceras


e a misteriosa gênese aleatória da imagem oriunda da usina

escondida, feito se fosse as sete cores da luz longe do prisma


que refrata a linguagem indigente e sem sobrenome ainda...

Farejo o vitríolo dos dragões e a sombra da besta enfurecida


da boca marrom da galhada e do assovio contralto da harpia.

— A ardósia musgo do morro muda seu tom quando chovida.


V


Range aquele moinho na gasolina do vento

instável do quintal vazio. E mó a mó e lento


refrigera o sonho vindo do portão de dentro

— onde o cadeado, entre ossos, está suspenso.


Tudo passa na pedra: orgulho, dó e lamento;

são tão grandes, mas terminam bem pequenos


no fim da linha do massacre da serra da rotina

que lacera o íntimo e depois expõe a alizarina


da tarde que parecia um alumínio elétrico de cinzas

escorados no gás de chumbo, da rajada que insistia


nos flancos, pronta para a utopia que se aproxima:

pôr o verso, coar o poema e não adivinhar a poesia.


VI


Clico, pressiono e deslizo e tudo mira o arquivo

todo em branco do aplicativo; e um teclado vivo


que pula na tela instantaneamente, sem convite, 

a fim de que o poeta cumpra o que fez prometido:


escrever o verso do cotidiano deste tempo sombrio

que passou a rasteira no homem e chegou sem aviso.


Vejo a multidão cibernética de antis issos e aquilos

e ouço os ocos do martelo e a sentença dos destinos.


No granito da manhã há uma pérola cinza escondida

entre o limite do morro e do cruzeiro que o identifica.


Higienizo as mãos, todavia é a alma que está poluída

na solidão decretada pelo vírus que mata mil por dia.

VII


Transita silencioso por entre as formações e as névoas 

da madrugada o desfiladeiro sem dialeto de um verso


camuflado, invisível, etéreo, contralto e quase abolido,

repleto das pausas falsas que nem têm tempo definido,


nem de outroras ou de futuros; de segredos ou de gritos

oriundos do gás do poema que irrompe no desconhecido.


O poeta não decanta os parasitas que sobram escondidos

e que compõem o fumaceiro colorido e volátil deste signo.


O meio-dia do domingo avança nos cinzas da tarde aflitiva

disfarçada nesta calmaria floral do grilhão rarefeito do vírus,


onde há tropeços na pedraria feito o junho das horas vazias...

— E somente a ardósia do morro me diz agora o que é poesia.


VIII


A temperatura do verso a qual pretende o poeta

é a mais alta, mesmo que deite sobre a sua pele


uma camada de neve; que na alma haja o iceberg

nascido no alçapão profundo dos miolos discretos.


Lívida é a noite fresca… E no limiar desta véspera

dos ofícios sempre repetidos — e que estabelecem


de lufada em lufada o seu concentrado cru de metas.

O vírus surpreende e sugere: o estarmos a esmo tece


uns estranhos emaranhados silenciosos que crescem 

no ar póstumo das horas de um raio que desaparece


sem que os olhos atestem a morte lenta da sua prece.

Não sei o que vejo. Não quero morar entre os alicerces.

IX


Faço desta manhã um bosquejo rude de palavras

e resfrio o hálito da calçada que está desocupada,


onde só as folhas se movem no entorno da fumaça

que sopro, depois de retida, no limite da baforada.


Abro o portão — respiro o vento arredio alavandado

e mexo no bolso a fim de sacar, do vazio, uma prata


de outra esperança, pois a anterior já foi consumida

e necessária — estou nos dias pelas golas da alegoria,


por insistir em ficar de pé fincado no trevo da esquina

e rodar a cabeça entre nãos, grunhir e voltar à escrita.


Sou feito de risos perseguidos e daquela ganja imaginária

 — uma bagana que ressuscita, mesmo estando molhada.


X


O meio-dia brota bem na meia-noite que o principia

e contorce o esqueleto delgado da madrugada oliva


— uma esparsa floresta suspensa que predomina —

desde o violeta profundo dos cantos da sua espinha


até às onze e cinquenta e nove e cinquenta e cinco...

E cinquenta e nove — quando morre a metade do dia.


E a meia-noite também começa a partir do meio-dia 

que a reduzia em pedaços — e inferniza a tarde cinza


grafite da colina que asperge nos bordos de suas linhas

este azul de metileno desbotado das dezesseis e trinta.


Escondo na minha canastra o deboche das horas frias

que renasceram no outro tempo do meio da pandemia.


XI


Procuro um verso na noite azul e ametista.

Tento baixar aquela estrela na minha lista


e ouvir os lamentos de quem sozinha brilha

no meio do nada ou em algo que não exista


entre dois polos aleatórios que se atrevem

a roçar seus limites na sala cinza do cérebro.


Folheio vários livros. Abro e fecho os arquivos.

Corro o dedo no drive. Subo e desço e respiro


quase ofegante enquanto os miolos são fritos

nesta azia dos signos, no refluxo dos sentidos:


quando eu escrevo toda a temperatura aumenta...

A perna treme. A mão sua. E onde está o poema?       



XII


— Eu transito entre os assoalhos da alvorada

e a manhã é de Fellini. É terminal. E abafada.


As horas são as drágeas coloridas que matam

este silêncio e toda a sua mentira de ser pausa.


Há franjas de nuvens dispostas em branco navajo

de um céu desfiladeiro de fumaças, longas e rasas,


que exalam o bouquet garni defumador das almas,

quando se equilibram anônimas na guia da calçada.


Doze e dez ou onze. O meio-dia é novo; a garoa opaca

predomina no entorno desse poema quase imaginário.


O vírus diz que não se sente feito se fosse água passada.

Estou no feixe abóbora do ocaso — eu e mais esse nada.


XIII


Quero sempre traduzir a vida no poema bem bonito,

mas não faço ideia do que de fato significa tudo isso,


esse estado tenso de órbitas inquietas que não se fixam

em formas: os verbos mudam de ação e os substantivos


de motivos. O verso é um artifício, uma reza escondida

que o tempo lapida quando lhe altera toda a engenharia


e a poesia feito um suplemento sensível que deixa pistas,

mas ninguém sabe da cara e nem tampouco onde habita.


Há muito ouço dizer que escrevo algumas coisas repetidas

perdido no círculo vicioso de ter a pretensão de ser preciso


— mesmo que não haja antídoto para o enxofre deste ofício.

Tenho beijos pendurados. Lá no varal roxo do espaço nítido.


XIV


                                                                                                      Vento

                                                                                                      Pastor das nuvens.

                                                                                                            Mário Quintana


São de tons de chumbo a encruzilhada suspensa do dia cinza

a partir do entorno perolado contido na lâmina bege da linha


obsidiana da nuvem que por entre todos os lugares transita

ejetada das vísceras do vento — e do uivo das suas turbinas.


Tudo parece esta fumaça invisível e que adiante se afunila

no desejo de que a tarde seja uma boa anfitriã da alizarina


que dividirá o breu das dezessete que ainda não se aproxima.

O morro oliva se espalha e distribui o seu cheiro de clorofila


sobre os vitrais translúcidos das horas que têm outras teorias

— logo depois que o vírus lhes devorou a lógica sem assepsia.


A madrugada é recente no agora deste sonho que se realiza:

o de vadiar quase leve no espaço de lá para cá da pandemia.






XV


O pó de chuva da manhã foi embora e a tarde morna

toma o lugar das coisas: do rodapé, da sala, da porta


e da escada que mostra o morro de dentro de um corte

da formação que rodopia lá no espaço musgo da encosta.


Vejo o céu de prata e que exala o sândalo de uma prova

que voa da árvore — neste zumbido mascavo que acorda 


os aromas das notas. O vento amplia a rua. Tudo se move

no asfalto da casa entreaberta e no tremor quente do foco


da janela da calçada vazia do corpo pouco e de alma morta.

Um verso passa no chão inverso das nuvens e naquela rota


que muda de norte, de cor e de onde os agoras não gostam

das horas que as controlam — e o resto este futuro devora. 


XVI


Ressoa nos arredores da noite média um silêncio que ladra

do estanho brilhante do morro e desta umidade que escapa


depois de o dia ter escoado pelos buracos soltos da calçada

há muito desocupada. O sol veio à manhã e o que era prata


agora é um bege refletido nas casas na montanha habitada.

A luz vai e retorna entre as alternativas que o vento asfalta;


são onze e cinquenta e cinco e as fotos têm a instabilidade

da nuvem que cobre e descobre o raio amarelado da faixa.


Não decifro a nota que traz a brisa farta. É de uma baforada

de gerânio ou de sal das fumaças? O cheiro vindo da árvore


da esquina marca a vela que está acesa e a que está apagada.

O poeta soletra o meio-dia e não deita mais na encruzilhada.






XVII


A tarde e sua usina suspensa de inoxidáveis variados.

Tem os escuros feito granitos mais pretos e pesados


e que de fora para dentro, de repente, têm este oliva

surpreendente no meio desse frágil âmbar camomila.


Tem os quase azuis. Profundos ao redor das pradarias

algodoadas da iminente chuva fina — inimiga do mapa


delicado da rocha sem gramatura das nuvens espalhadas

no degradê chumbo ao branco das treze e vinte e quatro.


O vento calmo mescla os temperos que exalam das árvores.

Treze e quarenta e um. Tomara que nem um raio nos parta


feito fatias ao lado do vírus que finge que fere, mas decapita.

A ardósia do morro é porta-bandeira. O vento é mestre-sala.



XVIII


São poucas as vezes em que estive presente em mim mesmo,

bem perto do meu olhar atento nas sequências que tremem


no cotidiano escuso dos escanteios da saleta e das saliências

do ladrilho que alcaguetam o som de uma identidade alheia.


Paira no desfiladeiro da manhã vários furta-cores de cinzas

e pretos e brancos gelo e grafites e aquele quartzo esquisito


do tipo turquesa e estendido na rede trançada dos infinitos

que a sua ausência escancara nos vãos dos meus labirintos.


Há um chalé alto do meu pensamento suspenso do paraíso 

entre os espamos deste pastel fundo da ferrugem no istmo


que divide os abóboras intensos do ameixa ao amarelinho.

— O ocaso reina na penumbra âmbar das dezessete e cinco.          


XIX  



                                                                                   A Jorge Cardozo


Estou onde não estarei agora e jamais estive,

pois sou o passageiro dos segundos famintos


que atravessam os muros do futuro e coíbem

o presente veloz que passa e não deixa timbre.


Como faço para mergulhar no miolo da poesia?

Se o poema não é um deus o que mais ele seria?


Aperto as mãos contra as mãos e alcanço a linha

da encosta que fornece a rima e em silêncio adia


a morte morrida que por dentro de mim renuncia

ao interesse de se viver nesta terra sem a profecia


— a de um verso nascido bem no olho da ventania.

A rede devora a rede da metáfora esquisita da vida.



XX


Estendo sobre o varal farpado do vento, sob a noite estanho

e molhada, uns dos meus versos confusos e momentâneos


que, mesmo pesados, decolam leves e sobrevoam este agora

dos poros que se molham na ânsia instável de como devoram


— além da paz — a alma tremida: esta dor fluída, e contida,

que esquenta e esfria por entre as vielas roxas das vísceras.


Vejo a inércia das horas e os ponteiros que somem do relógio

anti-horário que não presta mais, pois já rompeu sua órbita.


No caixão mole da cama sofro espasmos no hall da espinha

e no susto eu sinto aquele nó invisível e veloz de uma asfixia


que vem e mora. Corta e voa. Volta e sangra. Vai, mas fica.

O poema não anuncia a quase meia-noite que se aproxima.


XXI


Meu poema é uma engenharia reversa falida.

O seu combustível não sobe e nem solta faísca


nos arredores da centelha invisível que fabrica;

dentro do seu DNA há o gene ácido da teimosia


na teia de tripa por entre o rum das suas vísceras.

E nada nele sobrevive senão a fumaça que desliza


céu acima sob esta claridade escura do meio-dia.

O que faço além do verso e de pensar na mentira


disfarçada da próxima escrita? O que é a poesia?

A aposta que para o poeta sempre estará perdida?


Sinto o morro e o inverno novo do bege da linha. 

E o vírus diz que o seu contrato não venceu ainda.


XXII


No velocímetro de um relâmpago, e cálido,

eu poria os meus lábios secos nos teus lábios


(neles todos, nos quatro, entretanto, nos de baixo,

essa aterrissagem seria decerto a mais demorada,


por entre as tuas pernas no corredor desta agonia

de uma manhã alumínio que antes já foi alizarina;


ela avança sobre os miolos das vísceras da nova

ferrugem pêssego da nuvem disforme da aurora


e das mil onomatopeias chulas daquela pólvora

que acendia no córrego inundado da tua grota),


todavia, às onze ou meio-dia o bafo da tarde irradia

o veneno de quem come do cadáver da minha poesia.        




XXIII


O meu verso frequenta o instante do que já é passado;

jamais entenderá a morte seca deste presente deletado


e desconhece: será que estamos há muito no lugar errado?

Ele é um terço, uma novena vitalícia rezada ao contrário


ou, quem sabe, não seja nada além de um amplo nada

de fato. A poesia não prometeu comida e roupa lavada.


O tempo das horas se transforma em inúmeros atalhos,

a fim de que eu possa reencontrar o meu próprio rastro


e desenhá-lo nesta imagem oculta que caiba, não exata,

no raso do poema que vaza na primeira brisa que passa.


O beijo do poeta mora no refrigério veloz daquela rajada

— no bucho atado e preso no nó cego que nunca desata.

                                                                       












XXIV


E eu tinha muito a saber sobre como as manhãs predizem

os passarinhos invisíveis: é uma saudade em cada timbre.


Quero mesmo é beber da tua água enfeitiçada de arrepios

entre os graves do teu ritmo e o nitrogênio do meu calafrio.


Trago na canastra os teus versos para declamar neste fogo 

além do oxigênio das coisas e da estratosfera de um sonho


alimentado pela rede da realidade daquela força que emana

da gravidade invertida lá do meio do roxo da noite profana.


Contigo o meu dia é um calendário de ventanias e feriados

e o mundo é a nossa casa e vai e vem e volta e morre e mata;


e eu havia de começar pelo começo do fio da minha quilha.

Escrevi os teus poemas de açaí, porém nunca li a tua poesia.


XXV


                                                                          Há dias estranhos,

                                                                                                              em que sinto falta

                                                                                                              das ausências (...)

                                             Renata Brescia em Minha Intensidade Me Desperta


O meu verso queria ser aquela mãe que leva

o filho cego para o estádio no meio da galera


e narra o giro do jogo ao pé do ouvido; mas é

um ciclo de mesmas coisas e mesmos metros


que se revezam entre as lacunas deste inverno

novo e o silêncio que o vírus impôs por completo.


Há dias estranhos de ausências que soam no eco

repetido pelas paredes e nos desenhos inquietos,


onde o corpo marca silhuetas no lençol e na febre

— ali na encruzilhada do pelo desse mel que desce.


São onze e vinte e um e o meio-dia já acendeu a vela

na urna da manhã. E na tempestade que me desperta.  


XXVI


Eis aqui um testamento inócuo — sem herdeiro ou espólio;

não espere dele nada de concreto e nem ouro e nem dólar.


O que temos de pôr na mesa nunca interessou aos homens:

repetidos não poemas de muitos versos repletos de ontens.


Quantos já fomos dentro de nós mesmos? E os mil horizontes

de um ser novo para cada novo pensamento? Cai oca a noite


e tudo se modifica no motor do tempo ao redor da fornalha 

de seus movimentos. Somos inéditos e inúmeros neste teatro


sem ensaios marcados — e sem cachê ou elenco preparado —

e me escoro na coxia do intervalo e de toda a sua luz apagada.


Ninguém deseja esta nuvem elétrica e o seu chumbo pesado.

Peça aquela cerveja gelada. Relaxa. E acenda o meu cigarro.


XXVII


Depois de você o motim das horas destruiu o sistema.

Nada importa: a única coisa que está é a tua ausência,


que mesmo sobre uma alta dissidência ainda alimenta

esta febre fria e que, intensa, delira por entre o silêncio


da cabeceira toda vazia e de todo o vazio de um poema.

Fecho os olhos e as pálpebras são claras telas de cinema


da tua película em p&b que exibe somente uma sequência:

a de duas estátuas de sal na beira do mar da noite sedenta.


Em você me enxaguei. Me centrifuguei. E na tua algema

invisível de líquidos eu me condenei sob a tua sentença...


Depois de você eu me debati em preces perto da ampulheta;

o tempo longe de você é asfixiante. É uma dor de urgências.



XXVIII


Eu sei bem como você se sente: mãos sobre a cabeça suada,

vai para aqui e ali e lança outro olhar distante sobre a praça


e respira fundo. Não há aquela voz de dentro feito um grito

contido a traduzir a própria porção de infinito (um gemido


sutil, mas que possa ser ouvido). E o telefone é uma agenda

vazia que liga e desliga no ametista do arquivo sem poema.


Sei da angústia. E da taquicardia. Sei do calor. E sei do frio.

Nada sai nesse deserto de calafrios. Não acha o tal do signo


que inicie esse compromisso. A ideia insistente não floresce 

e a tela não é preenchida. Acende mil cigarros. Mas não reza


porque sente vergonha da fé. A ansiedade constrói o prédio

na sua rede imodesta. Toda a vida partiu. E só ficou o tédio.          














XXIX


Na árvore do vírus vejo os seus ramos formarem entranhas

com o pincel do vento raro dos acimas e abaixos da manhã


perolada — nuvens rasas que se rasgam feito leitos ou veias

verdes que unem os sons vindos de um castelo de fonemas;


vejo dragões e bestas enfurecidas e sigo os urros de silêncio

da boca marrom dos galhos; do assovio profundo da corrente


que me diz coisas sobre adivinhações, carmas e julgamentos.

Exigem que eu aprenda a saber quem sou — um sem emenda


imerso entre as vísceras míopes e inexoráveis de um poema.

Eles rogam pragas de futuros e me pedem que eu os entenda.


Abro janela e cortina e a noite tem magenta, roxo e ametista

— e ouço os timbres da flor no espaço no meio da pandemia.


XXX


Cá num mundo sem presentes os futuros acontecem

tão frios na medida que a nuvem aumenta e fornece


esta rede vendida para unir, porém que agora mede

o espaço ao redor entre a tela, o teclado e uma prece


na peleja do que ainda não existe. Muito não foi usado

neste laboratório clandestino quase ubíquo da palavra


escondida sob as várias formas e silhuetas de imagens

— garimpar poemas é risco elevadíssimo de fracasso...


A luz áspera desta penumbra abre a escotilha da tarde

e ouço o som da makita distante feito se fosse um arco


que desliza sobre uma rabeca e tudo então é um alarme

do silêncio do vírus que zonzeia os olhos — e nos abate.






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