ANTIDIÁRIOS DE ABRIL
I
Sinto os primeiros ventos desse abril e seu cinza
que começa nos porões das horas escorregadias
do vírus vindo da arrogância e da caverna vazia.
Escrevo antidiários na órbita lusco-fusco da linha
lá do morro de ardósia — escura, mar, lima e oliva.
Na falsa paz dos brancos das paredes lanço imagens
onde o cérebro fabrica a gênese elétrica da linguagem
— não é linguagem ainda. O poema é uma travessia
entre o que não se tem e o que o verso jamais poderia.
Vejo a manhã aguda. A esquina muda. A cor da neblina
escondida no pleito do dia: mascar o tempo e a agonia.
II
Há no sobretudo da nuvem este grafite seisbê que fere
a encosta de chumbos metálicos quase feito uma pedra
e que mergulha camuflada no horizonte musgo do oeste,
na ravina âmbar dos ontens. No calendário desta febre.
Levito no corredor do minuano e enxugo a minha testa
com o gelo seco volátil da rajada. A sacada é o que resta
ao escriba e ao seu planeta de mil poemas e arquétipos
que de nada servem: viram marolas quando o dia desce
na frincha lilás da aurora e do violeta genciana que orna
o meu verso reincidente naquela encruzilhada sinuosa.
Sou só um poeta. E não trago nem um truque na cartola.
III
Foi no olho da ventania violeta da madrugada
que o meu corpo torto ficou enquanto a alma
sobrevoava o entorno da esquina abandonada,
entre o branco na penumbra da força da rajada
e o arranjo de alfazemas selvagens que exalam
uma lavanda estranha, feito se todas ornassem
o instante mais preto e frio do antes da alvorada.
Devagar e depressa a paleta rosa da aurora passa
e a olaria da manhã rebenta, mas este azul invade
a noite sem capa. O poema é um espelho quebrado
e diz que o poeta é o chão onde ele está em pedaços.
IV
O dia rebentou azul, mas tem agora um colorido de cinza,
este pano de chão sujo que no céu lado a lado predomina,
no bafo da manhã vindo do alguidar derramado da esquina.
Leio o Amor Natural do Carlos e algo em mim se modifica,
feito se uma brisa revelasse a senha que estava escondida
no labirinto dos vermes que não querem a sua alma infinita;
lá dentro no meio das vísceras. Onde sequer o sangue visita.
Na sacada da varanda registro os poucos carros da avenida
nesta realidade do vírus que é invisível aos olhos da alegria.
Canso os controles. Fito as janelas da casa. E abro a cortina
— na clausura da cidade e na camuflagem begeada da poesia.
v
Há tempos ando no meio da selva da poesia, esta caçada
sem caça… Sinto as giletes afiadíssimas dos seus cascos
que aram a grama azul do domingo repleto de pedaços,
onde a vida se torna quase um longo instante demorado
— o poema é o fantasma que ludibria o poeta vulnerável.
Os confins de uma linha cinza ou ocre aleatória acasala
com as vísceras das horas que têm no alto a carruagem
assustada do futuro — este umbigo profundo do destino
do presente na utopia do real time. E do on line faminto.
Toco o livro físico. Não estou triste — tão somente aflito,
por entre os ofidiários do verso mais morto do que vivo.
VI
Longe de ti são ermos os caminhos
Florbela Espanca
Das ardósias variadas do morro vêm as fumaças do fogo
de alumínio. A tarde será nova após o meio-dia do sonho
— onde o vírus não passará daquele raro soneto tristonho.
Escrever um diário invertido (isto é o que está proposto),
em versos e não em parágrafos longos. Contorcer no todo
as horas do próprio transtorno. Exumar os pós do escombro
e cerzir o tecido do poema natimorto que não esconde o lodo
das redes do globo: os falsos otimistas, os mestres dos bolsos,
os especialistas e o papa dos coaches que tirará você do poço.
Hoje é o sexto dia. O meu sétimo sentido aposta no confronto
entre o coisado que dá na espinha e a dor do próximo tombo.
VII
Desfolho o caderno dos versos e dos signos desimportantes
que não têm caminho ainda. Escrevo entre as circunstâncias
inertes da pandemia, sobre a cidade sem eco dos passantes.
Resido no dia opaco que mais parece um tempo no instante
da velocidade perturbadora desse futuro doentio e faminto
dos segundos frenéticos — escapam das horas excruciantes,
entretanto são vagarosos no centro do desespero indefinido,
do vou lá na sala e do volto cá no quartinho. Teço o horizonte
fechado do sobrado. E o meu antidiário é um espólio perdido
nas guias do ontem e na lapela suja daquele poema proibido:
feito no pergaminho da manhã e na soma da ânsia e do vírus.
VIII
Às cinco reparo na aurora fluida no vidro da ampulheta
da passarela iluminada da fresta de onde desfila ligeira,
num pé de paleta, nessa manhãzinha nova e traiçoeira
que apaga a ruína da madrugada e o seu bordô violeta
na nuvem de telha das seis que às oito já está cinzenta.
Percorro o muito pouco da rede de fogo no meu quarto.
Ouço o gemido doído sob o som deste silêncio metálico
e das luzes super-roxas dos celulares delgados das salas.
O vírus ressignifica o meu verso dentro da noite azulada
e tudo em mim se distrai feito um veneno que não mata.
— Sou da urgência do poema. E das horas ultrapassadas.
IX
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes
A chuva de açúcar de confeiteiro desaba sobre a manhã fria
e que parece desenhar um vidro entre o que eu vejo e a guia
deslocada da calçada por onde quase ninguém mais transita.
São três e cinquenta e quatro no círculo dessa Baixada vazia,
na cerâmica vermelhão da sacada e na fragrância da avenida
— esta mistura cítrica do fougère, do gerânio e da tangerina.
Às sete e trinta e cinco tudo não passa de um verso eremita,
no chumbo da nuvem que faz da encruzilhada a única saída
— ainda mantenho a sidra, a farinha, o dendê e as bijuterias.
O drive abre o vírus do poema que não me salva da assepsia.
— Às seis e às dezoito não sei bem se é de noite ou se é de dia.
X
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
Fernando Brant e Milton Nascimento
O poema é uma comichão intensa que no poeta se pronuncia
a partir da hemoelétrica cerebral e de toda a sua engenharia
— a de iniciar os neurônios e projetar mil imagens coloridas,
entre a amperagem dessa linguagem quase alienígena ainda.
O manuscrito do verso é a sobra do que atravessa esta colina
— e o que antes era conjectura agora é a ideia a ser cumprida.
Vejo o abismo suspenso da aurora de um roxo que predomina
no firmamento da rocha alta da nuvem, viajante da ventania.
Ouço o silêncio do confim da linha. As horas são as inimigas
que trafegam vagarosas na liberdade enclausurada dos dias.
— O tempo patrocina o que começa. E também o que termina.
XI
Dentro de mim mora um anjo
Cacaso e Sueli Costa
Pressinto a lavanda espalhada nesta manhã cinza e confinada
nos intestinos do vírus que surgiu da nossa própria desgraça.
O poeta é uma barcaça solta no oceano permissivo da palavra
que serve a qualquer empreitada. Meço este frio que dispara
a saudade do sorriso farto da sua cara e do abraço estampado
— entre as mãos que vazavam pelos ossos das suas escápulas.
Sobre você o mundo prosperava e o tempo era só um detalhe
no sal das horas em brasas; e o seu grito parecia com o canto
metálico das águas — feito se de ais a vida fosse ressuscitada.
Acordei na angústia da febre ao redor do espaço que abranjo
— estou na sanca da sala. Dentro de mim não mora um anjo.
XII
O que o mar sim aprende do canavial:
a elocução horizontal de seu verso;
a geórgica de cordel, ininterrupta,
narrada em voz e silêncio paralelos.
João Cabral de Melo Neto
Estou imerso entre o véu estanho e alizarina da madrugada.
O vento arrasta os vultos da rua vazia e produz uma sonata
isolada — o vírus vai e vem e volta e surge na urbe apagada.
Vejo as luzes brancas do prédio e a alegria forçada das lives
— cada qual na sua casa e todos parados na fila do marasmo.
Estendo este poema sobre o meu varal fino de arame farpado
e pregadores de umbigo. Vou até a porta para ver quem anda
no silêncio paralelo dos ouvidos gelados das horas atrasadas.
Leio João Cabral: O Mar e o Canavial. Declamo em voz baixa
a geórgica da cana. A aurora é um cetim roxo que desmancha
o horizonte — traduzido na olaria da manhã que se derrama.
XIII
A Moduan Matus, dono da Remington.
No devagar depressa dos tempos
Guimarães Rosa
Trago aqui dentro de mim os céus da aurora e do ocaso
e mais os poetas mortos — e os seus livros empoeirados.
Venho lá da Remington de malinha e do coração ligado
no caderno e na esferográfica; dos rascunhos passados
a limpo mil vezes anotados num desenho sujo e borrado.
Da aurora bebo de sua fresta violeta quando ela aparece
ainda nas exéquias da madrugada. É devagar e depressa.
Do ocaso, igualmente lento e rápido, aprendi que o verso
vira noite, mas rebenta manhã no oriente — roxo e bege.
E dos poetas, o delírio de suas febres e os poemas velhos
— que apesar do fantasma do tempo, nunca envelhecem.
XIV
Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso,
Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?
Charles Bukowski
Não sei e nunca soube se sabia ou se sei mesmo
se risco o poema feito uma coleção de desenhos
escritos e pendurados no varal úmido desta prata
grave no preto do alumínio reluzente da palavra.
O poeta necessita — na engenharia de um verso —
alojar um certo êxtase e emergir o que está imerso;
deslocar uma placa tectônica da espinha do cérebro
e tremer de algum jeito o que está morto por decreto.
O vírus não é o inimigo: é o ser humano incompleto.
Cinco e cinquenta e seis. O funeral da noite começa.
E não é manhã que surge. É a aurora que a atravessa.
XV
Quem conhece a tempestade, enjoa na calmaria.
Dorothy Parker
Procuro pela aurora no decibel nulo do meu verso
super abafado — e a minha temperatura reverbera
a paleta terracota de mais outro sol que se manifesta
na obsessão doída e confinada de firmar no universo
o poema diário que por dentro da pandemia navega.
Vejo esta manhã toda violeta quase lilás nos flancos
das nuvens cinzentas da ardósia mansa da ventania
quando mexe e derrama o aroma salgado do pranto
das horas trêmulas feito este pesadelo que se inicia
no pêndulo da linha onde a poesia é a roxa calmaria
— anunciando a tempestade seca que o vírus viraliza.
XVI
O vírus novo ensina que minhas fraquezas são fracas
(moram nas mil esquinas libidinosas dos mil atalhos).
Ele me fala entre os seus silêncios (no dialeto do nada),
que não é mau e nem é bom: é tão somente necessário.
E diz ainda que este argumento é cabal e quase prático,
pois desconstrói a mó do tempo e a desfaz em pedaços.
Mas agora as paredes são espelhos por onde você passa
e o diamante que tanto procurava mora aqui no detalhe
miúdo sob os pequenos frascos a fim de conter as garras
habilidosas das horas. Ter o que é lento e o que é rápido.
E não mais conversamos. Deve de estar muito ocupado.
XVII
Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
Ivan Junqueira
Há bem ali no rumor da manhã nova um bálsamo
que reina nas notas cítricas que vêm e que passam
entre as frestas ainda fechadas desta ex-madrugada
e do que dela se torna tão breve, urgente e imediato.
Tudo se aloja na cor abóbora que tinge as pálpebras
quase avermelhadas deste céu que morre e que nasce
no mesmo intervalo do agora onde a aurora já é tarde.
Ouço nos vãos cinzas da tempestade uma voz ansiosa
e plena no meio do meio-dia que não divide mais nada,
pois que as horas fugiram da senzala do que seja óbvio
ao tempo lógico. O vírus quebrou o vidro do seu relógio.
XVIII
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu contemplados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Carlos Drummond de Andrade
Os minuanos conduzem uma chuvinha quase esparsa e fina
que posta contra o poste aceso não sai na imagem da esquina
desta madrugada alta, preta e fria e que rápida me aproxima
da chibata da saudade trazida das suas pernas sobre a minha
e da mordida longa que eu beijava no estreito da sua espinha.
E muita vez eu sequer sabia do paradeiro das nossas línguas:
para cá e para acolá; aqui e ali; dentro e fora; saliva a saliva.
E quantas vezes morremos um no outro naquela metalurgia
de duas estátuas fundidas? Teria isolamento que nos isolaria?
A paleta da aurora era a melhor de todas as horas preferidas
— onde a alma ficava em você. E o corpo levitava na avenida.
XIX
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Manuel Bandeira
Estou imerso nesta maratona excruciante de toda a sua falta
e de me ver perambular sob a sua imagem no alto do espaço
daquela estrela dourada onde você mora. Não acho a palavra
que traduza esta batalha ansiosa entre o inexistente e o nada
— ou até um verso que voasse até aos cômodos da nossa casa.
Ouço as têmporas roxas da manhã. Os dias estão cabisbaixos
na redoma construída pelo vírus que aterrissou muito rápido
nos arredores dos ares e no quintal do homem despreparado.
A tarde espalha o cheiro do mato vindo lá do morro queimado
e que ancora a vela de chumbo quatrobê dessa nuvem pálida.
— E tudo segue parado no defumador das horas inanimadas.
XX
Tarde cinza
toda azaléia
arde em rosa.
Alice Ruiz
E não foi o vírus novo que agora me despejou de mim mesmo,
porque já estou há muito e muito tempo fora daqui de dentro,
entre as formações invisíveis do poema e a do seu ornamento
etéreo da imagem que nasce e morre no próprio pensamento
neste lavoro de triscar o que não se faz presente no momento.
Leio dois filmes. E outro. E mais um. Fumo. Levanto. E penso
que não posso saber do funcionamento do que está semipreso
no blue do beco de entroncamentos, medos e ressentimentos.
Do quarto eu escrevo o que não pode me salvar deste desenho
de tresbê que contorna a silhueta do meu verso em desespero.
— Um cinza alumínio sobrevoa este rosa oliva do firmamento.
XXI
O óleo mineral do tempo dissolve toda a maquiagem
— repito o que foi dito aqui no diário: é lento e rápido.
E deste modo varre o pó, poro a poro, da sua imagem
que somente você enxerga no retrovisor da realidade;
ele o pulveriza sem dó naquele momento mais instável,
quando o seu próprio espírito escapa e alcança o espaço
da saudade que ainda o embaralha na canastra e devassa
a lógica da continuidade. Finalmente instaura esta pausa
indigente. A hora morna. O hiato de um intervalo do nada.
O vírus vaticina que os atalhos cobram preços muito altos
— o poeta anda na corda bamba e sobrevive no sobressalto.
XXII
Sete cães ladram às vinte e duas nos longos ecos
da rua vazia. E mesmo as folhas secas hibernam
— na camuflagem das horas que se incompletam.
E tudo cada vez mais se parece com este cérebro
que se altera, enquanto o vírus ergue o seu prédio
invisível e sem maquete. E sem ferro e sem alicerce:
está ali, aqui, sob, sobre, lá, acolá, mas não aparece.
Às vinte e três um silêncio estrondoso resplandece:
não há alma, apenas a luz laranja do poste atravessa
o clímax de uma inércia, onde a noite se estabelece
— no seu lençol de ocres. E de estanhos. E de beges.
XXIII
(...) e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós.
Oração de São Jorge
Sim, eu continuarei vestido e armado com as armas de Jorge
para que os meus mil inimigos silenciosos da rede não bolem
planos secretos e, tendo cérebros, não decodifiquem a órbita
escondida dos meus versos e que não vigiem os passos tortos
que ressuscito; que em seus pensamentos eles nunca possam
me fazer mal, pois têm línguas formadas dentro dos destroços
de suas vidas tão notáveis; que o meu corpo não ate as cordas
muito oferecidas para que eu próprio dê cabo da minha alma
— ela ainda traz um modo que de mim mesmo eu me desloco.
Grato pela lição — a de sempre me esvaziar do que me invade.
Estou imerso na inércia das horas e sei — Ogum é quem sabe.
XXIV
E enquanto não fui poeta eu não haveria de ser coisa alguma,
já que a única tarefa que entrego é a de desenhar a estrutura
desses meus poemas voláteis e que vão e vêm e voltam à rua,
onde nada é seu de verdade — é da vida que passa e continua.
Fui tantos e vários e abaixo da crítica e acima da temperatura,
enquanto não notei o verso tudo em mim tinha uma moldura
— a de um escultor esculpido por dentro da própria escultura,
no bronze dos porquês e das mentiras diurnamente noturnas.
E escrever é o confronto entre o arquivo nu e sem arquitetura
— e o esqueleto que treme e roça no magenta da musculatura.
Hoje eu sei que ser um poeta é quase não ser coisa nenhuma.
XXV
Na rua do vírus a calmaria marca duas e cinquenta e quatro.
Falta muito pouco para as três — e a noite vestirá a sua capa
no fim da cota do anjo da guarda, pois será a vez do crispado
e do ferro incandescente das hordas que o separam da alma
e da falácia da carcaça. Era um sonho que agora é o fantasma
da sombra larga no meio do meio-dia que tira a maquiagem
tão frágil da máscara, onde o desastre do pior é o que passa
na dor pungente bem além da morte do abóbora da fornalha.
Permaneço atrás do rumor da manhã e vejo na encruzilhada
a galinha torta e sem cabeça e o sangue nas taças derramadas
— e às seis este vento espalha o patchouli das horas apagadas.
XXVI
E depois da tarde chovida a noite paira e magenta e ametista
dispara o vento da rajada que penteia a fita da parte anímica
da cruz de asfaltos no trevo de quatro folhas lá da ladeirinha;
do brilho da avenida (do dendê, da vela escorrida e da galinha
posta entre o alguidar e o pano roxo ao lado da taça de sidra).
E os espíritos comem da farinha e bebem no bico das bebidas,
fumam da cigarrilha e não consigo absorver o que balbuciam,
enquanto flutuam sobre o banquete quase vivo e as bijuterias.
Qual é a intenção ou o fim que a fé, ali, deposita? Como seria
o teor da história que as almas contam no rodapé da esquina?
Expõem todos aqueles pedidos firmados e, assim, os avaliam?
XXVII
No rascunho embaçado dos primeiros signos.
Na tela manchada do telefone feito uma pena
desta cápsula invisível nas decisões do destino
entre a noite corona e o verso que me algema.
Moro na pá do universo e de todo o seu íntimo
dos tragos sob o alcatrão de estrelas ametistas.
Sobre o decibel agudo de um poema desconexo,
o gameta. A colisão. A origem. A cria sem sexo.
O útero do cérebro — e a alta tensão do infinito.
Nadas e inícios neste elétron que passa. E o link
na carruagem da partícula — o bóson de Higgs.
XXVIII
A aurora escarlate antes de tudo o que será lilás
leve à beira da alizarina. A luz abóbora. Os ares
frios do dia ensolarado, mas de quase inverno...
Noto o violeta genciana do trapézio da passarela
e o status do vírus é o de um nimbo acinzentado
naquele filme oriundo dos escombros trancados
de Cage em 8mm, no limite do fetiche do macho
e na tensão da surpresa dura da dura descoberta
(a cestaria da tarde lança uma brisa de caramelo
ao ocre que rodeia a linha no bordô da saudade).
E o verso não voa em mais um poema que parte.
XXIX
Eu fiz um poema belo
e alto
como um girassol de Van Gogh
como um copo de chope sobre o mármore
de um bar
que um raio de sol atravessa
Mário Quintana
Ouço este auxílio luxuoso de um vendaval cítrico de inverno,
no frescor do outono lento que corre por entre as vértebras,
feito se a medula óssea fosse cortada sob a lâmina da gilete.
O chope repousa no mármore nublado que o raio atravessa
na vitrine da tulipa e na vertigem de uma nova luz amarela.
Sou da repetição que ambiciona revelar um algo ou um nada
sobre a linha ultratênue da teimosia. Da falta do que se deve.
Vejo aqui e ali. Dou a volta na sala. Ando quase desanimado,
pois não desatei o nó do vírus e tenho somente um astrolábio
cego da carpintaria da constelação que orna esta noite ácida.
— Há labaredas vermelhas no céu e um fogo azul na palavra.
XXX
Contido no vidro é líquido
Descontido é perfume
Yrto Mourão
Vejo o canavial suspenso da manhã cor de quase ametista
e tudo deseja parecer um poema promulgado pelas horas
que desatam os instantes do eixo dos ponteiros e aniquila
os contornos deste agora quando ferve o tempo e o devora
na continuidade descontida do vírus e toda a sua ideologia.
O minuto ressignifica-se no cotidiano de uma nova paralisia
que se instalou somente para os que podem, porém a avenida
continua cheia de pessoas que precisam ganhar o da marmita.
O antidiário sai da cena todavia o verso segue a sua travessia
de estar e não ser nada. De chegar e partir. Desta taquicardia.
Repara: o fim começa no mesmo ponto do que não termina.
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